Ela era o tipo de pessoa que se via dentro dos livros e filmes quando os lia ou assistia. Era aquela que quando terminava uma leitura, saia falando sozinha como se continuasse a história, junto com os personagens imaginários.
Todo mundo sabia da sua existência no mundo, mas mesmo assim era "só mais uma no meio da multidão". E ela gostava de saber disso. Mas ela já tinha 22, acabara de se formar na universidade e estava vivendo uma vida de sonhos. Era uma curitibana que se orgulha de seu sangue paulista. Era filha de uma arquiteta e de um ex-bancário que se descobriu chef de cozinha e irmã de uma oceanógrafa. Ela gostava tanto dessa variedade de formações em casa. Sempre aprendia coisas novas e se orgulha de saber tanto sobre tantas coisas graças a essa família. Aprendeu, por exemplo, a cuidar e observar as coisas no mundo e a não caminhar pelo caminho traçado. Ela lembrava da mãe se orgulhando da filha de 11 anos dizendo: “Quero ser designer” e resolveu cursar jornalismo. Porque? Porque queria fazer revista. Lá, ela descobriu que a melhor de fazer revista era diagramar. E também descobriu de como jornais diários eram legais. Resolveu se dedicar a isso, mas no lugar certo. A mãe adorava provocá-la dizendo “Não falei, vai ser designer!”. Ela não deu bola e lá foi. No design gráfico, ela se encontrou e redescobriu suas paixões. Mas ela não sabia parar quieta. Estudou inglês porque achava o Brasil pequeno demais para os seus sonhos (e também porque queria entender as músicas que ouvia...). Ela gosta de congressos porque se sente bêbada com tanta informação nova cruzando seu cérebro. Ela sempre acreditou que é compartilhando informações que se gera mais informação. Ela se apaixonou pela vida acadêmica. Nessas idas e vindas da vida acadêmica, já escreveu e apresentou um artigo sobre Harry Potter, liderou uma equipe para criar um produto para a inclusão digital, descobriu que não adiantava fugir do jornalismo porque amava tudo aquilo ainda, por isso juntou os dois mundos em uma monografia sobre a diagramação de capas de jornais, mostrou para os próprios colegas como é importante ser pró-ativo, criou uma revista do zero, diagramou para infodesigners, e se diverte com projetinhos fantasias como o redesign da revista mais pop do Brasil e criando cartões de visita. Daí vem o que todo mundo pergunta pra ela. E ela sempre se empolga pra responder. Porque a revista? Ele diz que revista é como ela. É design. É jornalismo. É informação. É ser atualizada. É investigar. É apostar. É conhecer. É reconhecer. É estar a frente. É formar opinião. É gerar discussão. É ser efêmero e eterno ao mesmo tempo. É ser referência. É ser histórico. Ah, como ela se empolga ao falar das revistas que tanto consumia e a consumiam. Ela fica parecendo criança boba de felicidade com presente de dia das crianças. Ela tinha que viver isso. Foi aí que resolveu. Depois de viver a vida sempre em fast forward em Curitiba, ela chegou em São Paulo. Mas revista tem em Curitiba. Porque não ficou lá? Porque lá ela não se sentia perto da onde tudo acontecia. Ela precisava estar na boca do vulcão. Do lado de todo mundo que fazia acontecer. Ela tinha que fazer acontecer. Mas ela sabia que isso leva tempo. Sempre soube. Mas foi e encarou com calma. Sabia que tudo tem seu tempo. A única coisa que sabia era que enquanto ela não se via morando em São Paulo, ela não sossegaria. O fato é que hoje ela andava sozinha pelas ruas mega-movimentadas da mega-metrópole e custa a acreditar que está no meio daquilo tudo. Lembra que isso tudo é fruto de muita dedicação e sorria porque isso era o sonho de meses atrás e, apesar de ainda incompleto, agora era realidade. Daí ela pensa: se parte dele se tornou real, porque o sonho inteiro não se tornaria?
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
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